“Nós, os Leprosos” — O Testamento do Amor Levado Até o Fim
Em uma manhã de domingo na igreja de Santa Filomena, o sacerdote sobe ao púlpito de madeira com o rosto já inchado pelos tubérculos da doença e as mãos nuas marcadas pela lepra; em vez de iniciar o sermão com o habitual “Meus irmãos”, ele pronuncia as palavras que abalaram o mundo — “Nós, os leprosos” — transformando a ilha da morte em santuário de ressurreição.
NÓS OS LEPROSOS
O sino da igreja de Santa Filomena repicava claro na manhã de domingo no início de 1885, chamando centenas de figuras que caminhavam com dificuldade pelas trilhas de terra vermelha de Kalawao rumo à capela caiada de branco. No interior repleto, o ar estava impregnado pelo cheiro forte de óleo de eucalipto, cera de abelha derretida e pela respiração ofegante de pulmões feridos pela enfermidade. Junto ao altar, Padre Damião acabara de proclamar o Evangelho. Virou-se lentamente e subiu os três degraus de pinho do púlpito arrastando a perna esquerda já adormecida pela paralisia do nervo.
Um silêncio absoluto caiu sobre a assembleia. Centenas de olhos — muitos deles já turvos pela cegueira ou sem pálpebras — fixaram-se no rosto do sacerdote iluminado pelo feixe de sol que atravessava a janela lateral. Todos perceberam imediatamente a mudança. A orelha direita de Padre Damião estava espessa e inchada; suas sobrancelhas começavam a cair e, sobre as maçãs do rosto queimadas pelo vento marinho, despontavam os nódulos inconfundíveis do mal de Hansen. Durante toda a semana, os rumores vindos do dispensário do doutor Arning haviam corrido de cabana em cabana, mas ninguém ousava acreditar que o pai forte como um carvalho também carregava agora a sentença de morte de Kalawao.
O Púlpito de Madeira na Manhã de Domingo e as Palavras Que Derrubaram o Muro
No alto do púlpito de madeira, Padre Damião apoiou ambas as mãos nuas, sem luvas, sobre o parapeito à vista de todos. Olhou para os bancos onde Hoolehua, os anciãos cegos e os órfãos do coro erguiam o rosto para ele. Durante onze anos inteiros, seguindo o costume da pregação missionária, a cada domingo ele começava sua homilia com a saudação afetuosa: “Meus queridos irmãos...” Naquela manhã, porém, o sacerdote de quarenta e cinco anos fez uma pausa longa. Baixou os olhos para as próprias mãos desprotegidas onde a pele já se engrossava pela doença e, erguendo a cabeça, encarou seu rebanho.
Sua voz saiu grave, levemente rouca porque o bacilo já tocava suas cordas vocais, mas nítida até o último banco da igreja: “Nós, os leprosos...”
Não disse “Vós”. Disse “Nós, os leprosos”. Aquelas três palavras pronunciadas do púlpito de madeira caíram sobre a multidão como um raio que rasgou de alto a baixo o último véu entre o pastor e os degredados da terra. Nos bancos de pinho, soluços contidos explodiram em pranto aberto. Homens endurecidos por anos de abandono esconderam o rosto entre os cotos das mãos chorando convulsivamente; mães apertaram os filhos contra o peito. Desde o dia em que Jesus de Nazaré descera às águas barrentas do rio Jordão para colocar-se na fila dos pecadores, a história das missões modernas não vira uma encarnação na carne do próximo tão completa quanto aquela.
As Luvas Brancas Esquecidas para Sempre e o Despertar da Consciência Mundial
A partir daquele domingo memorável, o par de luvas de linho branco recebido no porto de Honolulu em 1873 perdeu para sempre sua razão de existir. Padre Damião escreveu ao seu superior provincial com uma paz luminosa: “A lepra já se manifesta visivelmente em meu rosto e em minhas mãos. Mas peço-lhe que não se entristeça. Se me dessem hoje a escolha de sair curado da ilha de Molokai abandonando o meu rebanho, eu responderia sem hesitar um segundo que prefiro ficar aqui com a minha lepra até o último suspiro.”
A notícia de que o sacerdote belga de Molokai contraíra a lepra por ter passado onze anos cuidando dos doentes com as mãos nuas percorreu os cabos telegráficos e sacudiu a consciência do mundo inteiro. As antigas críticas mesquinhas murmuradas em Honolulu calaram-se diante de uma onda de veneração que varreu a Europa, as Américas e a Inglaterra. A família real do Havaí conferiu-lhe a comenda de Cavaleiro Comandante da Ordem de Kalakaua; protestantes, anglicanos e católicos da Inglaterra e dos Estados Unidos enviaram navios carregados de medicamentos, roupas, instrumentos musicais e fundos para Kalaupapa.
Mais precioso ainda do que os recursos materiais foi o envio de braços para continuar a obra. Em julho de 1886, um ex-capitão do exército da União na Guerra Civil Americana chamado Ira Barnes Dutton — conhecido como Irmão Joseph Dutton — desembarcou sozinho em Molokai, pedindo a Padre Damião para trabalhar gratuitamente como enfermeiro pelo resto de sua vida em penitência pelos erros da juventude, permanecendo ali por quarenta e quatro anos. Vieram também o padre Louis Lambert Conrardy, o enfermeiro James Sinnett e, em novembro de 1888, Madre Marianne Cope (hoje Santa Marianne Cope) com as Irmãs Franciscanas de Syracuse.
Os Continuadores da Missão: Irmão Joseph Dutton e Santa Marianne Cope
Quando viu os hábitos limpos de Madre Marianne Cope e de suas religiosas entrarem nos orfanatos para assumir o cuidado das meninas e mulheres hansenianas, Padre Damião — já com as mãos deformadas, cobertas de chagas abertas e os olhos quase cegos — ajoelhou-se na varanda da casa paroquial e entoou o cântico de Simeão: “Agora, Senhor, podeis deixar o vosso servo partir em paz, porque meus olhos viram a salvação que preparastes para os meus filhos pequeninos!”
Em março de 1889, a doença entrou em sua fase final. Todo o corpo do sacerdote de quarenta e nove anos estava coberto de úlceras dolorosas, e sua garganta inflamada mal conseguia engolir gotas de leite morno e água da fonte de Waihanau. Ele jazia sobre um colchão de palha estendido no chão de tábuas de seu pequeno quarto ao lado da igreja de Santa Filomena — a poucos passos do local onde, dezesseis anos antes, dormira sua primeira noite sobre as raízes da árvore hala. Ao lado de seu leito, sobre a mesa rústica, o Irmão Joseph Dutton colocara o Crucifixo, o Breviário gasto e a pequena caixa contendo as luvas de linho branco que jamais haviam sido usadas.
Segunda-Feira Santa Sob a Árvore Hala e o Último Caixão do Carpinteiro
Na noite de 15 de abril de 1889 — Segunda-Feira Santa —, enquanto as ondas do Pacífico rolavam suavemente contra as falésias de Kalaupapa e centenas de leprosos ajoelhados na relva lá fora erguiam velas acesas rezando o Rosário pelo pai agonizante, Padre Damião olhou com um leve sorriso para suas mãos nuas marcadas pelas chagas e entregou a alma a Deus. Seu corpo foi depositado num caixão de pinho preto que ele mesmo havia construído quando ainda conseguia segurar o martelo, e sepultado sob a sombra da velha árvore hala de sua primeira noite. Mais de um século depois, em 11 de outubro de 2009, na Praça de São Pedro, o Papa Bento XVI inscreveu solenemente São Damião de Molokai no catálogo dos Santos — o pastor que guardou as luvas no bolso para tocar o próprio Cristo na carne mais ferida da humanidade.
“Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.’”— Evangelho segundo São Mateus 25:40
Senhor Jesus, que vos identificastes com os irmãos mais pequeninos, famintos e enfermos da terra. Pela intercessão de São Damião de Molokai, derrubai em nós todo muro de orgulho, distância e indiferença. Dai-nos a graça de viver uma caridade encarnada em gestos concretos a cada dia, para que, ao entardecer de nossa existência, nossas mãos também tragam as marcas do vosso amor. Amém.
Perguntas Frequentes Bíblicas e Históricas
Por que o início de sermão “Nós, os leprosos” de São Damião de Molokai tornou-se famoso em todo o mundo?
Quem foram os colaboradores que chegaram a Molokai para continuar a obra de Padre Damião antes de sua morte?
Quando São Damião de Molokai faleceu e quando foi canonizado pela Igreja Católica?
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