O Temor Junto ao Túmulo de Jacó e a Frase que Quebrou o Ciclo do Ódio
Apagadas as últimas tochas diante da gruta sepulcral de Macpela após setenta dias de luto real, os dez irmãos perdem o sono diante da cadeira vazia do pai — levando José a chorar pela segunda vez e a pronunciar a sentença que liberta famílias inteiras.
A última tocha embebida em resina de pinheiro estalou e apagou-se diante da pedra rolada na entrada da gruta de Macpela. Setenta dias de embalsamamento com mirra e natrão segundo o cerimonial egípcio, somados a sete dias de lamentação solene além do Jordão, encerravam os cento e quarenta e sete anos turbulentos do patriarca Jacó. O vento frio da tarde varria os carvalhos antigos de Hebron onde repousavam Abraão e Isaac. Contudo, quando a comitiva fúnebre voltou as rédeas dos cavalos para regressar às terras férteis de Gósen, no delta do Nilo, os dez irmãos de José não sentiram alívio algum. Pelo contrário: durante noites seguidas após o enterro, nenhum deles conseguiu fechar os olhos.
A cadeira do velho pai à cabeceira da família ficara vazia. E aquele espaço vazio reacendeu uma febre de pavor que haviam reprimido durante dezessete anos vivendo fartos sob a proteção do irmão governador. Nas tendas fechadas à meia-noite, dez homens de barbas já grisalhas sussurravam entre si com a garganta seca: “Talvez José tenha guardado rancor contra nós e agora, morto o nosso pai, resolva pagar-nos na mesma moeda todo o mal que lhe fizemos!”. Trinta e nove anos haviam passado desde o meio-dia das vinte moedas em Dotã. Mas, no porão da consciência deles, aquela cisterna seca continuava aberta.
Essa é a prisão mais cruel da culpa quando falta fé verdadeira na misericórdia. Durante dezessete anos em Gósen, José lhes dera as melhores pastagens do Egito, alimentara seus filhos durante a seca e carregara os sobrinhos nos joelhos. Nenhuma indireta amarga. Nenhum olhar de cobrança. Porém, quem um dia arrancou a túnica do próprio irmão tende a medir o coração do justo pela régua escura do próprio peito. Como sabiam que, se estivessem no trono do Faraó, teriam esperado apenas o funeral do pai para acertar contas a ferro, convenceram-se de que dezessete anos de bondade de José não passavam de teatro piedoso para poupar a velhice de Jacó!
Tomados de pânico a ponto de não ousarem encarar o irmão de frente, enviaram primeiro um mensageiro com um recado em nome do falecido: “Teu pai ordenou antes de morrer: Assim direis a José: Perdoa, por favor, o crime de teus irmãos e o seu pecado, por todo o mal que te causaram”. Desde os antigos Padres da Igreja, os comentadores bíblicos perguntam comovidos: teria Jacó realmente deixado esse recado ou teriam os dez filhos, desesperados, usado a sombra sagrada do pai morto como último escudo para escapar da espada? Seja qual for a resposta, a cena seguinte corta o coração de quem lê a última página do Gênesis.
Logo atrás do recado entraram os próprios dez irmãos, atiraram-se de rosto no chão aos pés de José e falaram como prisioneiros aguardando sentença capital: “Eis-nos aqui como teus escravos!”. E a reação do senhor do Egito não foi um sorriso superior nem uma resposta irritada. A Escritura registra numa frase brevíssima toda a dor daquele instante: ouvindo o que lhe diziam, José chorou.
Esse segundo pranto de José dói ainda mais fundo do que os soluços da revelação dezessete anos antes. Na primeira vez, chorara de alegria ao comprovar que os irmãos haviam mudado de coração protegendo o caçula Benjamim. Agora, aos cinquenta e seis anos de idade, chorava a tristeza de perceber que os irmãos do seu próprio sangue ainda enxergavam nele um carrasco prestes a sacar a lâmina! A dor mais silenciosa de quem já perdoou de verdade não é mais a cicatriz antiga: é ver a pessoa amada trancada voluntariamente no cativeiro do medo, incapaz de acreditar que a caridade possa sobreviver sem segundas intenções.
José não permaneceu sentado no alto da cátedra ditando um decreto frio de anistia. Desceu até o piso de pedra onde os dez homens tremiam curvados e pousou as mãos sobre o tecido rústico de lã dos mantos de Judá e de cada irmão para erguê-los de pé. Olhe bem para aquelas mãos! Trinta e nove anos antes, na beira do poço de Dotã, vinte mãos violentas haviam rasgado a túnica colorida das costas de um adolescente para roubar-lhe a dignidade de filho. Agora, as mãos que portavam o anel real do Egito tocavam com reverência a roupa áspera dos pastores — não para despir nem acorrentar, mas para devolver-lhes de vez a dignidade de irmãos diante dos sacos abertos de trigo dourado.
Então saíram dos lábios daquele homem marcado por treze anos de grilhões as duas frases que formam o cume da teologia da Providência em todo o Antigo Testamento: “Não temais: posso eu pôr-me no lugar de Deus? Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem; era para fazer, como acontece hoje, com que se conservasse a vida a um grande povo”. Cada sílaba corta como bisturi limpo e unge como azeite morno sobre queimadura antiga.
Primeiro, José estabelece a fronteira libertadora: “Posso eu pôr-me no lugar de Deus?”. Quase todas as guerras intermináveis dentro das famílias — por causa de uma partilha de herança injusta, de uma humilhação dita há vinte anos ou do abandono na doença dos pais — nascem no instante em que a criatura ferida veste a toga de juiz supremo e assume o direito de cobrar eternamente o irmão. Ao devolver a cadeira do julgamento exclusivamente a Deus, José libertou os próprios ombros do peso insuportável de ser cobrador do passado.
Segundo, José recusa qualquer mentira adocicada sobre o que aconteceu. Ele olha nos olhos deles e afirma sem rodeios: “Vossa intenção era de fazer-me mal”. O mal continua sendo mal. O poço de Dotã foi traição, as vinte moedas foram covardia, o luto sangrento de Jacó foi crueldade real. A fé católica jamais pede à vítima que finja que nada houve ou chame o pecado de virtude. Contudo, sobre o próprio pano rasgado pela liberdade pecadora dos homens, o Deus Todo-Poderoso bordou pelo avesso um fio de ouro que nenhuma malícia conseguiu impedir: transformou a caravana de escravos rumo ao Egito na estrada que abriu celeiros para salvar da fome multidões inteiras e preservar viva a tribo de Judá, da qual nasceria Jesus Cristo, o Salvador do mundo.
Do sepulcro de Macpela e dos celeiros de Gósen brotam três passos concretos de perdão católico para qualquer família hoje dividida. Primeiro passo: não enterrar a mágoa debaixo de uma paz de aparência mantida apenas enquanto os pais estão vivos, mas encarar a verdade com humildade diante de Deus. Segundo passo: descer do tribunal interior rezando para ser curado do hábito de reabrir a ficha criminal dos irmãos a cada discussão. Terceiro passo: selar o perdão com cuidado concreto, exatamente como fez José logo após aquelas palavras — prometendo continuar sustentando a eles e a seus filhinhos, falando-lhes diretamente ao coração com ternura.
Antes de falecer no Egito aos cento e dez anos, José deixou como último testamento um ato luminoso de esperança: fez os filhos de Israel jurarem que, no dia em que Deus os visitasse para tirá-los daquela terra, levariam consigo os ossos dele de volta à Terra Prometida. Até os ossos de um homem que soube perdoar tornaram-se bússola de liberdade durante quatrocentos anos de espera. Se hoje ainda existe uma cisterna de Dotã aberta na história da sua casa, recorde isto: você não precisa apagar a memória para começar a perdoar — basta descer do trono de juiz, entregar a cicatriz nas mãos do Crucificado e permitir que Deus transforme o antigo mal em pão vivo para as próximas gerações.
“José disse-lhes: “Não temais: posso eu pôr-me no lugar de Deus? Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem; era para fazer, como acontece hoje, com que se conservasse a vida a um grande povo.”— Livro do Gênesis 50:19-20
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