A Túnica Rasgada no Fundo da Cisterna Seca de Dotã
Com as unhas sangrando contra o calcário frio de uma cisterna sem água em Dotã, o jovem José ouve, logo acima da borda do poço, seus próprios irmãos partirem o pão e negociarem sua liberdade por vinte moedas de prata.
Dez unhas feridas contra a pedra nua. O calcário da cisterna de Dotã, liso pelo reboco antigo de cal e limo ressecado, não oferecia apoio algum aos dedos trêmulos de um rapaz de dezessete anos. Nenhuma gota d'água. Seis metros abaixo do pasto ardente de Canaã, o reservatório escavado em forma de cântaro — gargalo estreito no topo e ventre largo lá embaixo — guardava apenas lama rachada, carcaças secas de escorpiões e um ar abafado com cheiro de terra morta. José ergueu o rosto sujo para o pequeno disco de luz ofuscante lá no alto. Preso ao seu pulso esfolado ainda pendia um único fio de lã tingida de púrpura, último vestígio da túnica de mangas compridas que seus próprios irmãos acabavam de arrancar de seus ombros.
Mais cruel do que a escuridão do poço era o som que descia pela boca de pedra. Pão assado estalando ao ser partido. Água fresca despejada de odres de couro e o cheiro gorduroso de cabrito tostado na brasa trazido pelo vento do meio-dia. Nove filhos do mesmo pai não fugiram apavorados depois de atirar o irmão caçula de Raquel no buraco. Sentaram-se para almoçar. A poucos passos da cova onde o menino gritava por socorro. Cada súplica rouca de José batia nas paredes curvas da cisterna e voltava contra o seu próprio peito, esmagada pelas risadas secas e pelo mastigar tranquilo lá em cima.
Aquela violência não nascera de repente sob o sol de Dotã; fermentara durante anos debaixo das tendas de pelo de cabra no vale de Hebron. Jacó gerara José na velhice, fruto de Raquel, a esposa amada que morrera na estrada de Éfrata ao dar à luz Benjamim. Sempre que o velho patriarca olhava os traços do décimo primeiro filho, via o rosto perdido de Raquel. Por isso mandou tecer para o rapaz uma túnica longa até os tornozelos e até os punhos, bordada com fios raros — veste de príncipe que governa à sombra da tenda, nunca de pastor que carrega pedras e limpa currais.
O favoritismo escancarado do pai ardia como sal grosso nos ombros queimados dos dez irmãos mais velhos. Voltavam do campo com as mãos rachadas de espinhos e o corpo impregnado de suor ácido e esterco de ovelhas, apenas para encontrar José impecável junto aos joelhos de Jacó, relatando os deslizes que vira nos pastos. Na ingenuidade imprudente da juventude, o menino ainda narrava em voz alta seus dois sonhos: os feixes de trigo dos irmãos curvando-se diante do seu feixe, e o sol, a lua e onze estrelas prostrando-se aos seus pés. Ele não percebeu o instante exato em que o ciúme virou cinza fria nos olhos dos irmãos. A paz doméstica morrera antes do crime; já não conseguiam dirigir-lhe uma única saudação pacífica.
Quando Jacó enviou José sozinho por quase cem quilômetros desde Hebron até Siquém e depois até as colinas de Dotã para trazer notícias do rebanho, o jovem partiu vestindo justamente aquela túnica. Dotã ficava na encruzilhada das rotas de caravanas que desciam de Gileade rumo à costa e às fronteiras do Egito. De longe, a mancha carmesim e dourada da veste destacou-se contra o capim seco como uma brasa provocadora. Antes mesmo que José pudesse ouvir o balido das cabras da família, sua sentença já fora selada atrás das pedras: “Lá vem o sonhador! Vamos matá-lo agora, jogá-lo numa destas cisternas velhas e dizer que uma fera o devorou. Veremos em que dão os sonhos dele!”
Apenas Rúben, o primogênito, estremeceu diante do sangue fraterno. Convenceu os outros a não cravarem a faca no menino, sugerindo lançá-lo vivo no poço seco do ermo, com o plano secreto de voltar ao anoitecer para içá-lo com uma corda e devolvê-lo ao pai. Mas Rúben subestimou a fome de um rancor coletivo alimentado em silêncio. Assim que José se aproximou sorrindo para perguntar se estavam bem, dez pares de mãos calejadas avançaram como tenazes de ferro. O linho e a lã rasgaram-se num estalo seco. Arrancaram-lhe a túnica pelas costas, deixando vergões vermelhos na pele e aquele fio púrpura enrolado no pulso antes de erguerem seu corpo magro e soltarem-no no vazio.
Mal Rúben se afastou para vigiar uma ponta distante do rebanho, a brisa quente do leste trouxe odor de resina aromática, bálsamo, mirra e camelos carregados. Uma caravana de mercadores ismaelitas e madianitas descia a trilha poeirenta em direção ao Nilo. Judá estreitou os olhos para os sinos de bronze no pescoço dos animais e encarou os irmãos ao redor do pão. Que lucro teremos se matarmos nosso irmão e precisarmos esconder seu sangue para sempre? Vendamo-lo aos ismaelitas. Nossas mãos ficam limpas de morte, nos livramos dele e ainda repartimos a prata! A lógica fria do pecado sempre veste a máscara da prudência.
Uma corda áspera despencou pela boca da cisterna. Por três segundos luminosos, enquanto era puxado para fora da treva úmida e respirava o ar escaldante da colina, o coração de José saltou na esperança de que seus irmãos tivessem sentido piedade. Puro engano. Diante de seus olhos ofuscados estavam mercadores estrangeiros com turbantes empoeirados, e a mão de Judá estendida sobre uma laje de calcário. Tinido seco de metal contra a rocha. Pequenos lingotes de prata bruta pesavam na balança portátil do mercador e caíam um a um na pedra. Quinze. Dezoito. Vinte. Vinte siclos de prata — a cotação exata de um escravo adolescente nos mercados da Idade do Bronze Médio, dez moedas abaixo do valor de um servo adulto previsto mais tarde na Lei.
José caiu de joelhos na terra solta, lágrimas abrindo sulcos na lama seca do rosto enquanto lhe amarravam os punhos com tiras de couro cru. Chamou cada irmão pelo nome. Séculos de leitura não apagam a confissão tardia que o próprio livro do Gênesis registrará no capítulo quarenta e dois pela boca daqueles homens: eles viram a angústia mortal nos olhos do caçula, ouviram seus soluços implorando clemência pelos cabelos brancos de Jacó, e nenhum deles moveu um dedo. Vinte moedas divididas por dez mal davam dois siclos por cabeça. Por duas moedas no cinto, entregaram a carne de seu próprio sangue à poeira ardente do caminho do Egito.
Antes do pôr do sol, degolaram um bode do rebanho. As mesmas mãos que haviam contado a prata mergulharam a túnica rasgada numa bacia de sangue morno até que cada fibra colorida ficasse escura e endurecida. Mandaram levar o pano ensanguentado até Hebron sem sequer terem coragem de pronunciar o nome de José diante do ancião. Atiraram a prova forjada aos pés de Jacó com uma frieza cirúrgica: “Encontramos isto no campo; vê se é ou não a túnica do teu filho”. Nem mesmo disseram “nosso irmão”. Disseram “teu filho”.
O grito de Jacó rasgou o entardecer nas colinas de Hebron. O velho rasgou as próprias vestes, cingiu os rins com pano de saco áspero e afundou o rosto enrugado na lã endurecida de sangue coagulado, buscando algum resto do cheiro do menino. Seus filhos e filhas vieram rodeá-lo — inclusive os próprios autores da venda, fingindo consolar a dor que tinham fabricado com as próprias mãos —, mas Jacó recusou todo alívio humano: “É chorando que descerei à morada dos mortos, para junto de meu filho!”. Entre a tenda enlutada de Hebron e a fileira de camelos cruzando o deserto do Sinai, o céu estrelado parecia mudo como pedra.
Onde estava o Deus de Abraão e de Isaac quando a corda amarrou os tornozelos de um inocente? Naquela primeira noite acorrentado junto à fogueira dos mercadores ismaelitas, com a garganta ardendo de sede e o fio púrpura ainda preso ao pulso ferido, José olhava as colinas de Canaã sumirem na escuridão sem enxergar resposta alguma. Seus pés inchados seguiam para o delta incandescente do Nilo como propriedade alheia. Ele não podia imaginar que a Providência já descera com ele ao fundo da cisterna de Dotã — e que, vinte e dois anos depois, aqueles mesmos dez irmãos tocariam a testa no chão diante dele para implorar um punhado de trigo que lhes salvasse a vida.
“Quando José se aproximou de seus irmãos, eles o despojaram de sua túnica, daquela bela túnica de várias cores que trazia, e jogaram-no numa cisterna velha, que não tinha água.”— Livro do Gênesis 37:23-24
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