A Sepultura Aberta no Quintal e a Oração Nupcial na Noite de Ecbátana
No pomar gelado da madrugada, o velho Raguel crava a enxada na terra úmida cavando o oitavo túmulo para enterrar o novo genro antes que os vizinhos acordem zombando — sem imaginar que, atrás da porta trancada, uma oração a dois está vencendo a morte.
O ferro da pá rasgou a terra fria do quintal no silêncio da terceira vigília da noite. Nos fundos murados da casa em Ecbátana, o velho Raguel mordia o lábio para conter o pranto enquanto ordenava aos servos que abrissem depressa uma cova comprida antes do primeiro canto do galo. A oitava sepultura. Sete noivos anteriores haviam entrado com flores no quarto de sua filha única e saído rígidos sobre tábuas fúnebres antes do amanhecer. Agora, aquele rapaz luminoso recém-chegado de Nínive — único filho do seu primo cego Tobit — acabara de fechar atrás de si a mesma porta de madeira. Com voz embargada, Raguel murmurou à esposa Edna: “Se ele também tiver morrido como os outros, enterremo-lo escondido ainda no escuro, para não virarmos escárnio e opróbrio diante da cidade inteira!”.
O contraste entre os dois lados daquela parede de pedra cortava a respiração. Lá fora, sob o sereno gelado do planalto medo, trabalhava a pá do desespero acostumado a sete velórios seguidos. E horas antes, subindo a ladeira rumo aos portões de Ecbátana, o próprio Tobias sentira o sangue gelar nas veias quando o companheiro Azarias lhe propusera pedir Sara em casamento segundo a lei mosaica do parentesco.
Tobias chegara a estacar no meio da estrada poeirenta, expondo um pavor profundamente humano: “Irmão Azarias, ouvi dizer que essa jovem já foi entregue a sete homens e que todos morreram na mesma hora em que entraram no quarto dela! Eu sou o único filho de meus pais. Se eu perecer esta noite, levarei a velhice de meu pai cego e de minha mãe direto à sepultura de tanta dor!”. Todo aquele que já carregou traumas familiares, medo de repetir fracassos antigos ou tremor diante da entrega definitiva do matrimônio reconhece o suor frio na testa daquele jovem.
Mas Azarias não respondeu ao medo com frases vagas de otimismo. Fixou os olhos límpidos em Tobias, lembrou-lhe o pedido do pai Tobit de casar-se dentro da fé de sua linhagem e entregou-lhe a chave espiritual que desarmaria o quarto da morte: “Não dês ouvidos a esse pavor! Desde sempre ela estava destinada a ti pelo Senhor. Quando entrares na câmara nupcial, toma parte do fígado e do coração do peixe do Tigre e coloca-os sobre as brasas do incensário. E antes de vos unirdes, levantai-vos ambos para clamar ao Deus misericordioso; Ele vos salvará e terá compaixão de vós!”.
A instrução do Arcanjo atinge em cheio o coração da teologia católica do amor conjugal, tão esquecida ontem como hoje. Muitos cruzam a porta do casamento movidos apenas pela embriaguez passageira dos sentidos, pela pressa da posse ou pelo pavor da solidão, espantando-se depois quando feridas antigas e egoísmos sufocam a alegria debaixo do mesmo teto. Azarias ensinou a Tobias um caminho oposto: não tocar a esposa como objeto de impulso cego, mas aproximar-se dela ajoelhando-se primeiro diante do Criador que plasmou a alma de ambos.
Naquela noite na casa de Raguel, num clima dividido entre a emoção de abraçar o filho do velho Tobit e a angústia muda de quem assina uma sentença fatal, o contrato matrimonial segundo a Lei de Moisés foi lavrado e selado diante da mãe. A ceia terminou depressa. Edna conduziu a filha ao aposento interno, chorou abraçada a Sara e enxugou o rosto dizendo-lhe palavras que misturavam dor materna e última esperança: “Tem coragem, minha filha; que o Senhor do céu transforme tua longa tristeza em alegria!”. A pesada porta fechou-se. O ferrolho correu na pedra. Restaram apenas a chama trêmula da lamparina de barro e dois jovens ouvindo o próprio coração bater no silêncio.
Tobias não se precipitou sobre o leito. Fiel a cada palavra ouvida às margens do Tigre, abriu o alforje de couro e pousou o coração e o fígado do grande peixe diretamente sobre as brasas vivas do incensário. Um estalo quente ergueu uma espiral densa de fumaça aromática até as vigas do teto, espalhando-se pelas frestas da janela. No combate invisível que os olhos carnais não alcançam, o poder de Deus invocado na obediência da fé expulsou o demônio Asmodeu até os desertos do alto Egito, onde o Arcanjo Rafael o acorrentou imediatamente.
Assim que os passos da família cessaram no corredor escuro, Tobias ergueu-se da beira do leito, tomou as mãos trêmulas da noiva que aguardava de cabeça baixa o oitavo golpe da tragédia e falou-lhe com doçura firme: “Levanta-te, Sara, e roguemos a Deus hoje, amanhã e depois de amanhã, porque somos filhos dos santos patriarcas e não devemos unir-nos como os pagãos que não conhecem a Deus!”.
Sara levantou os olhos marejados para aquele esposo diferente de todos. Pela primeira vez alguém entrava naquele quarto convidando-a a pôr-se de pé diante do Altíssimo. Levantaram-se lado a lado, mãos unidas na claridade dourada do azeite. No mesmo aposento onde sete vezes reinara o pavor da morte, ecoou a mais antiga e sublime oração conjugal de toda a Sagrada Escritura: bendisseram o Deus de seus pais, que formou Adão do barro da terra e deu-lhe Eva como companheira e auxílio, declarando diante do Senhor que não se uniam por paixão desordenada, mas na pureza da verdade, pedindo a graça de envelhecerem juntos na paz!
Ao término da prece, a mesma jovem que semanas antes subira a escada pensando numa corda de forca uniu a voz à do marido num duplo selo de fé que encheu o quarto inteiro: “Amém! Amém!”. Nenhum grito na treva. Nenhuma sombra opressora. Apenas uma paz serena e profunda desceu sobre os ombros dos dois esposos enquanto adormeciam lado a lado sob as asas invisíveis da graça divina.
Lá fora, sob as oliveiras frias, a cova aberta desde a meia-noite esperava com a terra úmida empilhada na borda. Sem pregar o olho a madrugada inteira, ao ouvir o canto do galo Raguel chamou uma criada de confiança com uma lamparina para entreabrir devagar a porta do quarto e verificar se o rapaz já estava morto, a fim de sepultá-lo antes da aurora. A serva empurrou a folha de madeira sem ruído, ergueu a luz — e estacou maravilhada. Sobre os lençóis claros, tanto Tobias quanto Sara dormiam profundamente em paz, respirando serenos um ao lado do outro!
A criada voltou correndo pelo pátio num sussurro trêmulo de alegria: “Ele está vivo! Nenhum mal aconteceu aos dois!”. Raguel e Edna caíram em pranto sob a claridade azulada do amanhecer, bendizendo o Deus do céu que varrera de sua casa sete anos de vergonha. Antes que o sol despontasse sobre os telhados de Ecbátana, o pai mandou os servos taparem depressa a sepultura vazia até nivelar o chão do jardim e ordenou preparar um banquete nupcial de quatorze dias inteiros! Enquanto Tobias permanecia sob juramento festivo para consolar o sogro, o companheiro Azarias tomou a metade do recibo, seguiu com servos e camelos até Ragés e trouxe intactos os dez talentos de prata das mãos de Gabael — preparando a estrada de volta a Nínive, onde um velho pai cego contava nos dedos os dias da ausência do filho.
“Então, Tobias encorajou a jovem com estas palavras: “Levanta-te, Sara, e roguemos a Deus, hoje, amanhã e depois de amanhã. Estaremos unidos a Deus durante essas três noites. Depois da terceira noite, consumaremos nossa união; porque somos filhos dos santos patriarcas e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus”. Levantaram-se, pois, ambos e oraram juntos fervorosamente para que lhes fosse conservada a vida. Tobias disse: “Senhor, Deus de nossos pais, bendigam-vos o céu, a terra, o mar, as fontes e os rios, com todas as criaturas que neles existem. Vós fizestes Adão do limo da terra e destes-lhe Eva por companheira.”— Livro de Tobias 8:4-8
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