Quando o Velho Pai Correu Descalço Antes das Pedras de Toda a Aldeia
Com as solas sangrando pelas pedras da subida e um discurso de jornaleiro decorado nos lábios secos, o jovem aproxima-se da vila — mas antes que os potes de barro da Kezazah se quebrem no portão, o velho patriarca ergue a túnica e corre descalço para abraçá-lo.
Cada sílex pontiagudo da subida para as colinas da Judeia rasgava as solas nuas e gretadas do rapaz. Sob um céu branco de mormaço, ele mancava estrada acima como cão escorraçado que já espera a paulada, repetindo sem cessar com os lábios rachados a mesma súplica ensaiada: Meu pai, já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados. O suor salgado ardia nas feridas abertas dos tornozelos, e o odor azedo das pocilgas da Decápole continuava impregnado nos farrapos pendurados sobre suas escápulas magras.
Quando a torre de vigia em pedra calcária e os terraços de oliveiras da aldeia natal despontaram na crista do monte, o coração bateu-lhe seco na garganta. Mulheres que puxavam água na cisterna externa estacaram a meio passo, segurando os pesados cântaros contra o quadril. Lavradores puxaram bruscamente o cabresto dos jumentos. O cochicho alastrou-se mais veloz que fogo em palha seca: Olhem quem voltou rastejando sem uma única moeda no cinto!
Qualquer ouvinte judeu do primeiro século sentado diante de Jesus sabia exatamente que sentença aguardava um filho que vendera terras ancestrais e queimara a prata entre gentios. O costume comunitário preservado no Talmude chamava aquele castigo de Kezazah — o decepamento definitivo. Os anciãos e parentes reuniam-se no portão da vila trazendo um grande pote de barro cheio de grãos torrados, estilhaçavam a cerâmica contra o calçamento diante dos pés do transgressor e clamavam em coro: Fulano está cortado para sempre de seu povo e de sua herança! Uma vez partido aquele vaso, nenhuma porta honrada da aldeia podia oferecer-lhe pão ou teto sem partilhar sua desonra.
Todavia, antes que um único jarro de argila fosse erguido acima das pedras, uma cena inconcebível estilhaçou todas as regras de etiqueta patriarcal do Oriente Médio. Lá do alto do alpendre calcário — onde um vulto curvado apoiava-se na coluna varrendo aquela estrada branca com os olhos em todos os entardeceres desde a partida — as pupilas cansadas do pai reconheceram o andar claudicante muito antes que qualquer vizinho identificasse o rosto. São Lucas emprega um verbo grego que sacode as entranhas: estando ele ainda longe, seu pai o viu e moveu-se de íntima compaixão.
Um patriarca oriental de linhagem jamais corria. Tanto a sabedoria grega quanto o livro do Eclesiástico ensinavam que homens idosos de autoridade caminhavam com passo lento e solene, mantendo a túnica longa até os tornozelos; suspender as vestes para disparar pela rua era atitude reservada a crianças ou escravos em pânico. Pois aquele velho senhor puxou as bordas da túnica de linho para dentro do cinto, expôs as canelas finas marcadas de veias ao escárnio público, pisou descalço o cascalho quente e desceu a ladeira correndo mais rápido que os curiosos reunidos na entrada da vila! Por que correu daquele jeito? Muito além da saudade paterna, correu para transformar o próprio corpo em escudo vivo entre os cacos da Kezazah e o filho imundo.
Ofegante, com o peito arfando na poeira levantada, o ancião chocou-se contra o rapaz no meio do caminho, lançou os dois braços ao redor daquele pescoço encardido e cobriu-lhe as faces fundas de beijos repetidos. Meça por um instante o peso desse gesto diante das leis levíticas de pureza: ao colar sua barba branca e sua veste limpa aos trapos impregnados de esterco suíno pagão, o pai absorveu voluntariamente sobre si toda a impureza ritual do filho sob os olhos atônitos da multidão.
Tremendo dentro daquele abraço quente, o jovem começou a balbuciar seu contrato decorado: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho... Observe com atenção cirúrgica o texto de São Lucas. Ele nunca chegou a pronunciar a última frase! Antes que sua língua articulasse trata-me como a um dos teus empregados, a voz firme do pai cortou o discurso pela raiz. Deus não administra um campo de trabalhos forçados para penitentes que tentam recomprar a graça em prestações. Na casa do Pai ninguém entra por regime de diária; ou você consente em ser ressuscitado gratuitamente como filho, ou permanece do lado de fora.
Voltando-se para os servos estarrecidos que haviam descido logo atrás, o velho disparou quatro ordens imediatas que desfizeram peça por peça o funeral do primeiro capítulo. Depressa! Trazei a primeira veste e vesti-lha! No grego evangélico, stolēn tēn prōtēn não significa uma roupa lavada da despensa dos criados nem um manto comum de hóspedes, mas a própria túnica cerimonial do patriarca, reservada às grandes solenidades — lançada diretamente sobre os ombros trêmulos do moço antes mesmo de um banho.
Em seguida veio a joia de ouro que víramos brilhar sobre o lagar de azeite no dia da ruptura: Ponde-lhe um anel no dedo! Quando o anel de sinete gravado com o brasão da família deslizou pelo dedo esfolado do rapaz, um silêncio elétrico percorreu o beco. Aquele sinete pressionado na argila selava escrituras, abria celeiros e carregava a assinatura jurídica da casa. Embora o terço vendido jamais voltasse, o pai devolvia-lhe inteira a dignidade filial — não porque o jovem já tivesse provado mérito, mas porque a misericórdia paterna gera a fidelidade que precede.
E ponde calçado nos pés dele! No mundo romano e judaico antigo, escravos pisavam descalços o chão das fazendas; somente filhos livres e senhores calçavam sandálias de couro presas aos tornozelos. Assim que o couro macio envolveu aquelas plantas feridas, a fantasia servil morreu na poeira. Então soou o decreto final de festa: Trazei o novilho cevado e matai-o! Um bezerro engordado especialmente para grandes ocasiões rendia mais de duzentas porções de carne tenra — o bastante para convidar a aldeia inteira à mesa da reconciliação, convertendo os vizinhos que quase quebraram o pote da exclusão em testemunhas de uma ressurreição.
Pouco depois, a fumaça cheirosa de lenha de oliveira e carne assada já subia acima dos muros do pátio enquanto dezenas de lâmpadas de azeite se acendiam no lusco-fusco. Lá dentro, pandeiros marcavam o compasso e vizinhos erguiam taças de alegria ao redor da mesa onde um morto respirava de novo. Contudo, meia milha acima, nos terraços de oliveiras tingidos pelo azul frio do crepúsculo, outro homem acabava de apoiar no ombro a mesma enxada pesada de ferro após doze horas de suor solitário — descendo para casa sem imaginar que a música vinda do salão de seu pai estava prestes a expor o segredo mais sombrio de sua alma.
“Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a festa.”— Evangelho segundo São Lucas 15:22-24
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