O Último Ônibus e a Janela que Nunca Escurecia
Os vizinhos perguntam-se por que dona Marta ainda acende uma vela atrás da vidraça muito depois de passar vazio o último ônibus da estrada.
Todas as noites, quando o sino da matriz batia nove horas sobre o vale enevoado, dona Marta riscava um fósforo diante de seu pequeno oratório doméstico. Rezava primeiro uma dezena do Terço nas contas de oliveira gastas por quarenta anos de lida; depois levava uma vela protegida em vidro até o peitoril da janela voltada para a estrada.
Sete anos haviam se passado desde que seu filho caçula batera o portão de madeira no ímpeto do orgulho juvenil, partindo num ônibus noturno rumo à metrópole. No início vieram mensagens curtas, depois aniversários esquecidos e, por fim, três anos de silêncio pesado após dívidas e frustrações.
Vizinhos bem-intencionados aconselhavam-na a poupar a cera e dormir cedo. «Se ele quisesse voltar, um telefonema leva dez segundos», diziam com delicadeza. Marta apenas sorria, enxugava o vapor da chuva no vidro e deixava o trinco da varanda destrancado até meia-noite.
Ela sabia algo que o Evangelho de Lucas ensina profundamente: a vergonha faz a soleira de casa parecer intransponível. Se algum dia seu menino descesse na escuridão sem coragem de bater, precisava enxergar da curva da estrada que alguém ainda velava por ele.
“O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”— 1 Coríntios 13,7
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